Por quase três décadas, a creatina foi associada à hipertrofia muscular e ao ganho de força. Popularizada nos anos 1990, tornou-se um dos suplementos mais estudados e seguros, reconhecida por aumentar a resistência em exercícios de alta intensidade. Nos últimos anos, no entanto, a substância voltou ao centro das atenções por outro motivo: pesquisadores agora investigam se ela também pode melhorar o desempenho mental.
De acordo com o nutrólogo Diogo Toledo, coordenador do departamento de Nutrologia do Hospital Israelita Albert Einstein, o interesse vem do fato de que o cérebro, assim como os músculos, também depende de energia rápida para funções como memória, raciocínio e atenção. “A creatina melhora a disponibilidade energética muscular, então surgiu a hipótese de que ela também poderia beneficiar o cérebro em situações de estresse mental, fadiga ou doenças neurológicas”, explica.
O tema ganhou destaque após um estudo publicado em 2024, que relatou melhora modesta no desempenho cognitivo de 15 voluntários privados de sono após ingerirem uma dose elevada de creatina monoidratada. Apesar da repercussão nas redes, especialistas alertam que o estudo foi pequeno e de curto prazo, conduzido sob condições extremas — o que limita suas conclusões.
Segundo o nutricionista Igor Eckert, cofundador da plataforma Reviews, a maior parte das pesquisas sobre o tema ainda apresenta resultados inconsistentes. “São cerca de 25 estudos, e os achados variam muito. Alguns mostram benefício, outros não. Mesmo quando há melhora, ela costuma ser pequena e difícil de traduzir em ganhos reais de cognição”, afirma.
O que se sabe
A creatina é produzida naturalmente pelo corpo e também encontrada em carnes e peixes. Atua armazenando fosfatos de alta energia, que ajudam as células — principalmente musculares e cerebrais — a repor energia em momentos de esforço intenso. Estudos confirmam que a suplementação aumenta a força e a massa magra, com ganhos médios de 5% a 15% em potência muscular.
E no cérebro?
Pesquisas sobre os efeitos cognitivos começaram nos anos 2000, mas os resultados permanecem inconclusivos. Uma revisão publicada em 2023 na Nutrition Reviews mostrou que voluntários suplementados com creatina tiveram leve melhora em memória e atenção sob estresse, sem diferença significativa nos níveis de cortisol ou frequência cardíaca.
“Toledo ressalta que há indícios de melhora cognitiva apenas em condições específicas, como privação de sono ou fadiga mental. “A creatina parece atuar como suporte energético, e não como um estimulante cerebral”, diz o nutrólogo.
Limites e incertezas
Quando o assunto são doenças neurológicas, os resultados são ainda menos animadores. Ensaios clínicos com pacientes de Parkinson, Huntington, ELA e esclerose múltipla não mostraram benefícios relevantes. Um dos maiores estudos, publicado em 2015 no JAMA, acompanhou 1.741 pessoas com Parkinson por cinco anos e foi encerrado por falta de resultados.
Apesar disso, novas pesquisas continuam surgindo. Um estudo piloto publicado em 2025 pela Universidade do Kansas testou doses altas de creatina em pacientes com Alzheimer leve, apontando aumento de 11% nos níveis cerebrais da substância e pequenas melhoras cognitivas. Os autores, no entanto, classificaram os resultados apenas como “prova de viabilidade”.
Segurança e uso consciente
A creatina é considerada segura dentro das doses recomendadas (3 a 5 g/dia). Estudos de longo prazo não mostraram efeitos tóxicos em rins ou fígado de pessoas saudáveis. Mesmo assim, o uso deve ser avaliado por um médico, especialmente em casos de doenças renais ou hepáticas.
“O maior risco é o entusiasmo excessivo”, avalia Eckert. “A pessoa aposta em uma cápsula para melhorar a mente e deixa de cuidar do sono, da alimentação ou da saúde mental.”
Por enquanto, a creatina segue com uma reputação bem estabelecida no mundo esportivo — e um potencial ainda incerto no campo da neurociência.









