Por sete dias, desbravei BRs, estradas estaduais e vicinais, ouvindo o povo, observando cenários e percebendo sentimentos que se repetem — da capital Salvador ao Velho Chico, passando pelo Portal do Sertão, Chapada Diamantina e Sertão Produtivo. Um exercício de escuta real, longe de narrativas de gabinete, que mostra um interior bonito, verde, pulsante, mas cansado, descrente e pedindo socorro.
Do Portal do Sertão até a região da Chapada, placas de sinalização pichadas com mensagens como “Lula ladrão” se multiplicam na beira da estrada. São frases curtas, mas que sintetizam um humor popular: o país não está como deveria, e a revolta parece crescente entre motoristas, comerciantes e moradores de zona rural.
Em Andaraí e Mucugê, onde hotéis e pousadas estiveram lotados durante o fim de ano, a fala dos empresários surpreende: “O movimento foi muito bom, mas o povo está insatisfeito.”
Mesmo com caixa cheio, profissionais de turismo relatam reclamações sobre preços altos, impostos e insegurança. Os turistas gastam menos e os custos operacionais sobem. É o “bom movimento com gosto amargo”.
Nas ruas históricas, no comércio e nos bares, o discurso é semelhante: “falta um homem retado pra trazer investimento.”

A sensação é de abandono. Cidades com enorme potencial turístico se ressentem da ausência de obras estruturantes, incentivos e diálogo com governos. As rodovias, em regra geral, estão muito bem cuidadas. Palmas para o governo.

Passando por Ibicoara e Barra da Estiva é bonito de olhar a riqueza no campo, o verde da natureza. Porém, à beira da pista, produtores vendendo morango e melancia reclamam.

“Os clientes acham caro pagar 25 reais no morango… mas tá tudo caro, como é que a gente vende barato?”.
A matemática é simples: insumos sobem, combustível sobe, frete sobe. A conta chega para quem produz e para quem compra. Para se ter uma ideia, nessa região a gasolina comum está em média R$6,50. Preço salgado.
O carro não pára e a estrada é longa. Enquanto Barra da Estiva impressiona pela vitalidade do comércio — movimento intenso, lojas cheias, investimento visível com uma bela escola já na entrada — Brumado exibe um clima oposto.
O sentimento na Capital do Minério é de abatimento. As pessoas reclamam do prefeito Fabrício, do governador (muitos nem sabem o nome) e do presidente Lula. Em um restaurante à beira da estrada, uma senhora idosa — ex-eleitora fiel de Lula — desabafa e pergunta: “moço, será que o neto de ACM ganha? Cabeça Branca não perdia uma…”.

E depois de comer uma galinha caipira bem temperada mais uma carne assada com ovo de verdade, salada de chuchu e arroz com feijão verde no ponto, seguimos viagem. E aí que vem o contraste mais duro.
Depois de Malhada de Pedras, imediações de Lagoa Real, dezenas de pessoas vendendo umbu nos quebra-molas. Crianças, mulheres, idosos — muitos mais parecendo pedir socorro do que vender.

De um lado, o produto local; do outro, a pobreza exposta sem filtro. “Dá um real, tio”.
E seguimos pela BR-030, estrada para Caetité, uma UPA que parece shopping center.

Tem ainda roda de fofoca. Grupos de homens encostados à sombra de um pé de pau, falando da vida alheia. Cena repetida também em Igaporã. A falta de perspectiva vira passatempo.
Já em Riacho de Santana, a rádio Sucesso anuncia a propaganda estatal: mais de 44 escolas de tempo integral na região do Velho Chico. Aqui o assunto principal é política. Falei com gente letrada e gente humilde, empresários e empregados.
A população demonstra frustração com a gestão do prefeito Tito e quer respostas sobre o retorno de João Vitor, afastado pela Operação Overclean. Segundo minhas fontes, esse retorno pode ocorrer em fevereiro.
Uma jovem de 18 anos resume o sentimento geracional: “aqui em Riacho o PT é forte por causa dos idosos, mas nós mais novos é contra.” E é o que se vê na impecável feira repleta de frutas de boa qualidade. A sertaneja de 73 anos reclama dos preguiçosos mantidos pelo Bolsa Família, mas sentencia que na política “é 13 13”. “Não voto no outro, não. O avô era ruim pra gente”, opina.

Dormi, descansei, dei risada e acordei. Destino? Bom Jesus da Lapa. E numa loja de utensílios de couro, perto da gruta, um comerciante não gosta de uma frase que, de forma provocativa, soltei: “que bom que meu presidente Lula está trazendo desenvolvimento”.
A resposta foi imediata, tal como minha alucinação premeditada: “nunca mais na minha vida voto naquele traste. Ali é arroz de terceira.”
O motivo? Ele diz que é longo demais para explicar. Seu Cotrim não estava afim de conversa fiada.

É o retrato do interior que não aparece em discursos oficiais. Apenas impressões da fotografia do momento.









